Tempos atípicos requerem medidas inovadoras e conectadas com os valores dos colaboradores

O ano de 2020 foi um dos mais atípicos da história recente e, no âmbito corporativo, isso não foi diferente. Novos modelos de trabalho, home office, mudança nos hábitos do consumidor. Não faltaram elementos desafiadores para todos os tipos de empreendimento, mas um aspecto tornou-se uma problemática constante: como manter colaboradores engajados e satisfeitos, mesmo em condições adversas?

Dados de estudos publicados pela empresa Deloitte mostram que os millenials e os integrantes da geração Z apresentaram-se mais fiéis ao trabalho durante a crise. No entanto, essa tendência está atrelada a uma outra variante: o propósito do trabalho realizado. Essas gerações, de acordo com o estudo, tendem a priorizar cargos e empresas que estejam conectados a um propósito alinhado com seus valores pessoais, demonstrando um senso de responsabilidade individual e o sentimento de que todos estão, de fato, juntos nos problemas observados na sociedade.

Uma obra importante nesse sentido é o livro “Por que Fazemos o que Fazemos?”, do filósofo Mário Sérgio Cortella. O autor aponta a maneira como a vida de cada pessoa é constituída pelos momentos que ela vive e que o trabalho, como uma grande parte das ocupações diárias, precisa estar conectado a algum tipo de propósito pessoal para que isso traga a satisfação necessária para deixar de ser somente uma fonte de renda. O livro inicia com a consideração de que muitas pessoas caem em vidas automáticas, com tarefas realizadas quase roboticamente, em vez de movidas pela satisfação real.

Cortella apresenta uma série de conceitos históricos e relevantes, perpassando a alienação do trabalho caracterizada por Marx e a maneira como a consciência de que o trabalho realizado não pertence ao colaborador é suficiente para retirar o seu prazer. A partilha desproporcional das tarefas também se soma a isso, sobrecarregando alguns e ditando sua rotina pessoal de acordo com as atividades profissionais– férias condicionadas, a espera imensa pelas folgas semanais. Tudo isso sinaliza para a maneira como o trabalho com propósito é a chave para que os colaboradores obtenham a gratificação necessária para sentirem-se parte da empresa e não só uma peça dela.

Um dos exemplos brasileiros mais significativos é o da Magazine Luiza, que traçou políticas de manutenção de empregos, contratação de minorias e iniciativas de combate à crescente violência contra a mulher em meio à pandemia. Com funcionários satisfeitos e avaliações positivas, a empresa se tornou um dos melhores cases de comportamento ético e positivo em situações difíceis. Aos olhos do consumidor, a marca conquistou a preferência de muitos para valorizar e incentivar o seu impacto positivo, gerando resultados ainda mais positivos para as finanças e para todo o setor.

O exemplo está alinhado com a obra de Cortella, que encaminha sua reflexão para a importância do propósito em situação de crise. O potencial transformador de uma empresa para seus funcionários e sua comunidade é imenso e perceber isso é essencial para conseguir uma cadeira cativa na vida de seus públicos.

Na prática

Conseguir fazer com que colaboradores e clientes se tornem engajados e satisfeitos com a empresa e com suas práticas pode parecer um tanto quanto complexo, ainda mais quando algumas medidas mais radicais e negativas – como demissões e cortes – se fazem necessários. Porém, uma postura ética e transparente é o primeiro passo para que isso se torne realidade e para que os colaboradores entendam os esforços que estão sendo feitos em prol de seu bem-estar, mesmo que nem sempre sejam bem sucedidos.

Um estudo publicado pela PWC mostrou que, enquanto 79% das lideranças acredita que o propósito é fundamental para o sucesso dos negócios, só 34% aplicam isso efetivamente em todas as suas ações práticas. Ou seja, nem mesmo os líderes acreditam completamente na maneira como suas ações empresariais são capazes de transformar a sociedade em certa medida.

Esse comportamento não é compatível com uma liderança eficiente para o contexto em que vivemos. É preciso, em 2021, estruturar os valores necessários para a empresa se adaptar e agir no mundo, mas também transmitir isso aos colaboradores de forma incisiva e colaborativa, permitindo que cada funcionário e parceiro seja parte do processo de transformação e vivência de um contexto positivo.

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